Eduardo H.C. Berendonk
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise na PUC - Rio
Partimos do pressuposto de que em Além do princípio do prazer (1920) Freud
trouxe uma nova dimensão à teoria da melancolia. A introdução da pulsão de
morte e sua articulação com as pulsões eróticas deram à Freud e aos
psicanalistas que lhe sucederam uma nova abordagem dessa afecção. Esta será
entendida como um elemento estrutural do sujeito, marcando a impossibilidade de
realizar o luto de um objeto. Esse luto impossível marcaria a desintricação
pulsional que está na origem da destruição melancólica.
As toxicomanias, da mesma forma, manterão relações com algo relativo à
desintrincação entre as pulsões. Esta é uma das hipóteses de trabalho de
diversos autores. Dentre eles citamos Aulagnier(1) que nos ajudará a relacionar
alguns dos termos que desejamos investigar neste trabalho. A saber: paixão,
alienação, toxicomanias e melancolia.
Em Freud temos algumas outras formulações envolvendo a questão da morte,
colocadas de forma mais presente em Da guerra e da morte - Temas atuais(2)
(1915) temos algumas passagens que podem nos ajudar a trabalhar os temas:
Às nossas relações de amor mais ternas e íntimas está ligada uma parcela de hostilidade, capaz de estimular nosso desejo de morte inconsciente. (...) Não valeria a pena conceder à morte, na realidade e nos nossos pensamentos, o lugar que lhe é devido e deixar que se manifeste um pouco mais nossa atitude inconsciente sobre a morte tão cuidadosamente suprimida até hoje? (...) Suportar a vida permanece sendo o dever de todo ser vivo. A ilusão perde todo seu valor quando ela nos impede disso. (...) Lembremo-nos do velho adágio: Si vis pacem, para bellum. Se você quer manter a paz prepare-se para a guerra. Seria atual modificá-lo: Si vis vitam, para morte. Se você quer suportar a vida, organize-se para a morte. (Freud, 1915, p.300-301)
Descoberta, portanto, a intrincação pulsional que liga a morte ao vivente,
Freud realiza um avanço teórico que pode interditar ao sujeito qualquer
consolo ingênuo sobre o futuro. Uma tal proposição se rebate, portanto, sobre
o narcisismo. Ela deriva do postulado freudiano de que não existe representação
da morte no inconsciente. Desde então a morte está presente na vida, como uma
pulsão cuja intrincação com as pulsões parciais supõe que o desejo, e
aquilo que o causa, representa estruturalmente uma operação que é deduzida da
inscrição da pulsão de morte no eu.
Podemos portanto considerar que faz parte do estatuto do desejo freudiano,
estruturalmente, a sua ligação com a morte, na medida em que o desejo se
revela como sendo sempre desejo de outra coisa. A morte seria a tendência
manifesta na moção pulsional que visa a cessação da tensão, mas, por efeito
de Eros, algo sempre escapa de ser alcançado e a pulsão permanece parcialmente
insatisfeita garantindo assim um novo movimento em busca do objeto visado que
uma vez encontrado revela-se como faltante. A fusão pulsional tem como efeito lógico
a manutenção de uma parcela não assimilável da pulsão. Ao contrário a
desfusão pulsional pode portar algo diferente disso.
Assim, poderíamos dizer que a melancolia seria então uma doença relativa ao
lugar onde se inscreve a pulsão de morte.
Se as pulsões parciais e a pulsão de morte trabalham de uma maneira constante,
se o trabalho de luto é próprio do que está vivo, então a melancolia é o
efeito de uma desfusão pulsional. E isto revela que desde sempre estavam
presentes as condições para transmutar a perda em um enigma, mergulhando o
sujeito numa tristeza infinita de um luto impossível.
Entre as doenças do luto, podemos dizer que termos a paixão em sua versão fúnebre:
ela seria como a mentira que a pulsão de morte adota para se intrincar às pulsões
ditas de conservação da espécie / do indivíduo. A paixão realiza uma falsa
intrincação pulsional. A paixão pelas drogas pode ser dita como realizando
algo semelhante. O prazer oriundo das paixões (droga, jogo ou outro ser humano)
efetivamente se relaciona com a economia narcisista, e, portanto, identificatória.
Anula a tensão entre as instâncias representadas pelo eu e ideal do eu
(confundindo-se ao eu ideal neste caso), assim como cria um momento de trégua
no conflito presente entre Eros e Tanatos. O que a droga, ou o objeto da paixão,
vem a realizar é uma pseudo-resolução temporária do conflito identificatório
que nunca foi possível ser resolvido de outra forma e que torna-se então
insustentável. Cada vez que esse conflito supera certa medida, o sujeito só
pode resolvê-lo lançando mão do objeto droga ou da atividade do jogo. Um dos
possíveis entendimentos parciais da etiologia da habituação está aí
colocado.
Mas voltemos à paixão melancólica. Lacan designou-a como la mourre. Esta pode
então ser interpretada como um termo que conjuga o amor (l'amour) e a morte (la
mort). Mas também este termo consta no Robert com a definição seguinte:
trata-se de um termo em desuso que remete a um jogo de adivinhação italiano
semelhante ao nosso jogo de "purrinha". A paixão estaria relacionada
portanto a um jogo de adivinhação.
Aulagnier, na sua análise dos jogos de azar (p.171), nos mostra que a paixão
por estes manifesta o que há de intolerável para o eu em aceitar a dúvida, os
limites do que se pode conhecer ou prever no futuro e seus avatares. Em outros
termos, a paixão e o jogo de azar realizariam mesmo a negação do conceito de
azar, que vem a ser o termo com o qual o ser humano designa o incognoscível, o
não previsível e o inesperado em seu próprio devir.
É como se houvesse uma suspensão do inconsciente, da falta e da dúvida. Saber
de antemão a resposta corresponde também à certeza melancólica, mas aqui
tomada pelo oposto da paixão. Esta última teria relações mais próximas à
mania que poderíamos dizer, corresponderia a um desmentido do conflito
identificatório entre eu e ideal do eu.
A paixão melancólica então se dirige ao eu que ela afeta. O outro, objeto
perdido que o melancólico ama não seria semelhante a esse eu ideal que
Narciso, prisioneiro da falta de imagem (de algum outro), ama até morrer? No
lugar de I(A), ideal do eu como sendo constituído como um ideal do Outro, mantém-se
a instância do eu ideal, i(a), que uma vez sofrendo um abalo narcísico
perderia sua vestimenta imaginária, fazendo uma desvinculação entre a imagem
e o próprio objeto; algo correspondente ao objeto a apareceria, real, em sua
vertente de dejeto, de resto e, portanto, causa de horror.
I (A) « i(a) Þ i > < a
Perdendo a vestimenta imaginária o sujeito identifica-se com o próprio
objeto, ou seja, "a sombra do objeto recai sobre o eu".
Se tomarmos esse eu da frase de Freud como a instância imaginária, moi, temos
então que a melancolia revela na verdade o que ele é: um objeto. Um dentre
outro objetos do mundo imaginário. O melancólico desvelaria o que o neurótico
insiste em manter escondido, como objeto de uma ilusão(3).
Por outro lado, se tomarmos o eu da frase citada como sendo o próprio sujeito
chegamos a formular então que o matema da fantasia fica completamente
subvertido: S = A. Daí a ausência de movimento desejante suportado pela
fantasia. ( subversão de S<>A Þ subversão de S <> D, isto é, da
pulsão)
Se o enamoramento pode por vezes resultar numa história de amor na qual o
desejo retoma seus direitos, ele pode também se revelar ser a cópia da
melancolia pelo desatamento que ele atualiza. O sofrimento do melancólico
testemunharia um saber desconhecido de uma culpa que estaria como que ligada à
um assassinato sempre por se realizar(4). Não seria isto que mergulha o melancólico
numa passividade considerável, num luto infinito que reduz toda palavra à uma
queixa interminável atravessada por auto-acusações opressoras?
Lembremos aqui que para Karl Abraham a passividade que caracteriza o melancólico,
é muitas vezes desencadeada por uma situação que o ultrapassa e o confronta
com a sua impossibilidade de reagir diante do acontecimento.
As adições
Já que falamos de desvelamento da verdade, como poderíamos pensar os ditos
toxicômanos, ou melhor os droga(há)ditos(5) sem nos confrontar com nossa
dificuldade em apontar algo da verdade ao definir neste conjunto aquilo que
manifestamente destrói, estraga e o tempo todo assinala um defeito da vida?
Existiria uma estrutura psíquica que daria conta dessa apetência tão
particular que teria a urgência como nome e o gozo como sobrenome? A droga cuja
tomada cotidiana vem a ser indispensável não sublinha o desejo, mas sim o
desespero, ou mesmo a necessidade(6).
Quem seria esse tirano interno ao qual o sujeito se submete primeiramente com
deleite, em seguida com horror e finalmente com uma indiferença morna? Quem senão
a ausência tornada um ser que rege a existência do sujeito?
Trabalharemos com a seguinte hipótese: a droga toma o lugar de uma ausência
enigmática que se apresenta compulsivamente. Entretanto a droga não substitui
essa ausência. A droga tenta paradoxalmente desfazer o sujeito desse enigma da
ausência. A droga toma a consistência de um objeto que pode assim ser erigido
como um ser da ausência(7).
Na melancolia o sujeito não sabe o que ele perdeu nem quem ele perdeu. É a
essa impossibilidade que ele é confrontado. Essa dupla constatação tende a
anular a perda, que fica faltando à série de significantes, mas nem por isso
deixa de estar tiranicamente presente, realmente presente. De agora em diante,
antes de se apresentar como um resíduo, o drogado vai elevar o resíduo ao
status da única coisa pensável para o seu desejo.
Daí a proposição: não seria a morte que o droga(há)dito visa, mas a putrefação,
o resíduo, o resto no sentido lacaniano. Se trata também de uma identificação
com aquilo que ele espera, que vai fazer dele um vassalo de uma pura espera,
desesperadamente buscada. Nessas condições, a droga se torna o pretexto para
criar uma espera no próprio lugar de um significante ausente (perda) e que até
então não tinha se manifestado para o sujeito.
Lembremos aqui que o resto, aquilo que Lacan chamou de objeto a, entra na
constituição de nosso eu ideal, como parte destacada e não especularizável,
suscetível em função disso de dar à imagem especular forma e contorno. Ora,
uma parte desse resto, que nos constitui como sujeito na nossa relação com o
outro, parece estar ausente nessa espécie particular de "escravo da
droga".
Daí a necessidade de fazer surgir esse resto no único registro ainda disponível:
o real. Tudo se passa como se a operação que se constitui no momento do estado
do espelho tivesse falhado, no que concerne a um dos avatares do sujeito. Nós
poderíamos traduzir essa falha nos seguintes termos: O assassinato da Coisa
(das Ding) não foi inteiramente completado. Para entender essa proposição
precisamos nos referir à hipótese de Freud em Além do princípio do prazer: a
estrutura de um ser vivo é dominado pelo princípio do prazer/desprazer, princípio
de homeostase que regula, no sentido do rebaixamento das tensões, as suas relações
com o mundo externo. Assim, no ser falante, haveria uma instância em
funcionamento que tentaria afastar aquilo que, do mundo interno e externo,
criaria tensão demais. Da realidade subjetivada, o homem só atinge "pedaços
escolhidos". Também, a Coisa será aquilo que desde a origem está isolada
no exterior. É o "radicalmente estrangeiro", o inassimilável. Este
estrangeiro vai poder funcionar para o sujeito como uma referência. Será o
objeto primordial perdido para sempre, e de certa forma nunca inteiramente
perdido, pois se trata sempre de reencontrá-lo. Por essa razão, ele seria uma
referência que permitiria ao sujeito garantir e balizar o seu desejo. O princípio
do prazer que governa a busca desse objeto o mantém sempre a distância. Os
objetos de satisfação, os objetos pulsionais não são a Coisa mas sim as ilusões.
Lacan relembra nesse momento que se a lei humana fundamental é a interdição
do incesto, no momento mesmo em que essa lei se anuncia, ela indica que o desejo
do incesto que ela proíbe é o desejo mais fundamental. Assim, a Coisa
representaria a mãe primordial, arcaica, a mãe visada pelo incesto.
Uma vez que uma certa distância foi tomada com relação a esse objeto
primordial, a realização do desejo do incesto vivido como interdito se torna
um fato impossível. O impossível do gozo incestuoso com a mãe é a própria
condição de existência da palavra. A distância da Coisa é a própria condição
de existência do sujeito falante que Lacan denomina de o parlêtre. Lacan pode
então adiantar que o símbolo, o simbólico, é o assassinato da Coisa.
Esse conjunto de hipóteses nos permite dar uma nova dimensão à Coisa,
partindo da situação do objeto na sublimação: o objeto do desejo carrega
sempre a marca de sua origem narcísica, munido de elaborações imaginárias,
mas suscetíveis de serem socialmente valorizadas, culturalmente reconhecidas,
notadamente no domínio da arte. De fato a sublimação não consiste em
"mudar de objeto" mas sim "mudar de finalidade". Ela tende a
elevar o objeto à dignidade da Coisa, à dignidade daquilo que,
incomparavelmente, se revela ser uma ausência. Como uma parte do objeto - ou
das transformações desse objeto - psíquico pode assim se representar no real
já que nós declaramos que o objeto está marcado pelo fracasso ou é faltoso?
O exemplo da paixão amorosa poderia fornecer alguns elementos como resposta a
essa questão. Tal é o paradoxo que rege o golpe passional: brutalmente, sem
que nada aparentemente indique a possibilidade de encontro entre esse homem e
essa mulher, a paixão subitamente os aproxima, os aliena um ao outro. Em um
segundo apenas isso surge da própria imagem daquela que revela uma paixão que
ela ignora ter suscitado. Essa fascinação, esse calor que abraça o corpo e o
circula teria o nome de flash(8).
É também sob a forma de uma paixão que o drogado é levado a reconhecer no
objeto-droga aquilo que desde sempre faltou e representa a causa do seu
encantamento. Desde sempre estava lá a título da ausência, era esperado...
Desde então a ausência, a espera, a fascinação inicial, mas não fundadora,
formam o conjunto mortífero onde se superpõem os termos vindos ao invés da não-vinda
do objeto, não-vinda dessa parte do objeto que falta à sua qualidade de objeto
perdido.
É preciso então, de agora em diante, entender o encontro com as drogas como a
tentativa de fazer surgir o objeto ali aonde não tinha nada. Uma maneira como
outra qualquer de escapar de uma solidão assustadora, que nenhum objeto chamado
de transicional (fralda, polegar ou chupeta) veio até então figurar ou
representar.
Assim, a droga como agente inerte de uma paixão devoradora ou de uma figura
intratável, cristaliza e garante uma forma de melancolia muito antiga,
contemporânea do Estádio do Espelho, e que havia permanecido desconhecida do
sujeito e de seu ambiente. A droga preencheria em função disso uma função
original. Se nós consideramos que o discurso, a linguagem, a cadeia de
significantes trabalha o sujeito, durante toda a vida, nós podemos afirmar que
só há origem na medida em que um fragmento discursivo que se ausentou, ou não
atingiu a simbolização, se apresenta num real tardio a título de um primum
movens.
Do flash inicial à dependência final, a droga como falta do luto e vindo
substituir a melancolia - na sua forma clássica - se ofereceria como um termo
em parte identificador. Na degradação do corpo podemos dizer que há o reflexo
de um sofrimento tornado ato, posto em cena, quotidianamente: algo falhou na
constituição simbólica desse corpo. Não poderíamos considerar que é no
tempo mítico da primeira forma de identificação - aquela pela incorporação
do pai - que o infans foi como que colocado na impossibilidade de obter uma
primeira identificação, suscetível de dar consistência à um traço psíquico
da imagem especular? Esse impossível estaria no princípio dessa identificação
mal feita com aquele cuja função é a de suportar a Lei, o pai, deixando
aberto um buraco que faria do infans um ser no qual nada parece poder dar
limites a não ser esse objeto assassino ao qual não cessa de apelar: a droga.
Desde então, essa falha na primeira forma de identificação articulada com a
falta do objeto - na sua qualidade de objeto perdido - poderia dar conta dessa
forma particular de toxicomania que desencadeia a crueldade e instala a
marginalidade ao invés da Lei.
Enfim poderemos considerar que a inscrição da pulsão de morte no eu, que
necessita de uma dupla operação (identificação primordial ao pai e
surgimento da imagem especular sobre o fundo da perda do objeto) se revela
estar, de alguma forma, estragada. Nós poderíamos formular então (igualmente
como hipótese e a ser verificada somente para algumas espécies de toxicomanias
melancolizadas) que a crueldade com a qual o drogado se trata representa uma
tentativa de constituir aquilo que deixou de vir da função paterna.
Por fim, poderíamos então resumir e indicar algumas proposições que poderiam
dar conta do drama que vive aquele que está prisioneiro do objeto-droga, nas
"toxicomanias melancolizadas" que consideramos:
- constituição do objeto-droga ao invés do objeto interno do qual ele não
pode fazer o luto;
- crueldade exercida no lugar do próprio corpo, por não ter sido possível
encontrar aquilo que poderia se constituir como Lei;
- eclipse na (primeira) identificação, que se encontra substituída pela
identidade que o social lhe devolve e que ele exibe e endossa como um rótulo:
"Eu sou um drogado."
Essa identidade seria a expressão de uma paralisação, de uma estase, pela
nomeação. Seria o indício de um naufrágio da subjetividade e de um último
esforço para dizer "eu" no lugar de um pronome indefinido qualquer.
Acaba por exercer, de qualquer forma, um efeito de supressão da subjetividade
ao encontrar eco no discurso médico/universitário cotidiano de homogeneização
dos indivíduos, de totalização e abolição da diferença.
Esse mundo próprio que a droga cria, é aquele no qual o sujeito se denomina,
aquele onde o Social passa a representar apenas o lugar onde se editam códigos
incompreensíveis que vêem a exercer função de suplência ao ideal do eu. A
psicologia das massas de Freud nos mostra na estrutura de uma massa, qual a função
do líder e dos semelhantes. A alienação na massa é a garantia de manutenção,
para o sujeito, da mesma estrutura dependente de algo que faça as vezes de
ideal do eu, isto é do líder, que anula, ao amar igualmente todos os indivíduos
da massa, qualquer tensão entre as instâncias do eu e do ideal do eu.
Estaríamos inclinados então a considerar que o objeto droga, pela forma como
ele trabalha o Social, é uma das figuras do elo que articula o Mal à desgraça
individual e à crueldade melancólica.
Assim, em algumas toxicomanias poderíamos talvez pensar a droga como o objeto
que o analisando teve que constituir ao invés daquele que lhe teria permitido
representar sua opressão melancólica. O saber que se constitui na transferência
tende a permitir que o sujeito alcance o luto a partir do qual se reconstitui o
objeto interno que deveria ter sido o suporte.
Substituir a dor nua e enigmática pelo trabalho de luto, luto de um objeto ou
de uma abstração que está no seu lugar, tal é a nossa tarefa.
Se um analisando pode medir o tempo que separa uma sessão da outra, se ele
percebe que o analista está submetido a esse tempo da sessão e à esse ritmo,
se ele pode incluir isto no quadro da existência, então ele estará apto à
compreender a universalidade da Lei, a constituir o objeto suscetível de
devolver contorno e forma à imagem ausente, reintroduzindo-a no curso de sua
história, e apto à começar, enfim, a pensar esta paixão que tem como objeto
a espera infinita: aquela que a droga suscita.
1- Aulangnier, P. Los destinos del placer. Alienación - amor - pasión.
Petrel, Madrid, 1980. p.166-184.
2- Freud, S. De guerra y muerte - Temas de atualidade. (1915) In Obras
Completas. Amorrortu, Buenos Aires, 1996. p. 275-301.
3- A toxicomania também pode ser tratada como revelando verdade do
Social na nossa sociedade, verdade esta que, no entanto, insiste em ser
silenciada, como podemos ver por exemplo nos trabalhos de Melman sobre a
toxicomania a sua relação com a sociedade de consumo. Cf. Melman, C.
Alcoolismo, Delinqüência , Toxicomania - uma outra forma de gozar. Escuta, São
Paulo, 1992. p.94-95.
4- Cf. Hassoun, J., La cruauté mélancolique. Aubier, Paris, 1995,
p.71-86.
5- Cf. Becker, P. & Vidal, E. Droga(há)ditos. In Drogas: uma visão
contemporânea. Imago, Rio de Janeiro, 1993, p.68-73.
6- Cf. Sissa, G. O Prazer e o Mal. Filosofia da droga. Civilização
Brasileira, Rio de Janeiro, 1999. p. 39-68.
7- Há diversas outras formas de se formular essa hipótese. Hugo-Freda
(em conferência ainda não publicada de 1998, no Rio de Janeiro), por exemplo,
fala em uma solução que exclui o inconsciente e o sintoma. A nossa forma de
formular a questão neste trabalho parece ser menos radical e visa a articulação
com a problemática da melancolia, mas não é muito diferente.
8- Termo de uso cotidiano nos ambientes onde habitualmente se consome
droga, principalmente cocaína, no Rio de Janeiro e outros lugares. Termo também
usado por Olieventein, para referir-se principalmente a uma primeira experiência
com a droga. Cf. Olieventein, C. Destino do toxicômano. Almed, São Paulo,
1985.
Fuente: http://www.psicanalise.com/artigos/artigo02.html