SEM A DOR, O VAZIO: TRANSFERÊNCIA E MELANCOLIA  (nota)

Vera Regina da Graça Ruschel.

“Deus é um bom dramaturgo mas se repete muito

porque dá à

vida sempre o mesmo desfecho: a

morte.”

Dias Gomes(1)

Quem escreve sobre a morte, também morre.

Alfredo Dias Gomes, morreu em maio deste ano.

Mas deixa uma obra em que inúmeros personagens ganham vida por seu gênio criativo. Abre a porta a um mundo onde leitores ou espectadores podem transitar livremente pelo imaginário.

Das novelas escritas por ele, muitas foram adaptadas para a televisão, ganhando forma personagens como Odorico Paraguassu, prefeito da imaginária cidade de Sucupira. A novela intitulada “O Bem Amado”, antes que uma espécie de elegia ao personagem - título, expõe uma elegia à morte. Ou antes, quem sabe, ao medo atávico que temos dela.

Odorico passa a vida a perseguir a morte. Seu principal mote político, dentre as peripécias administrativas da prefeitura, era a inauguração do cemitério da cidade. Aspiração sempre adiada, uma vez que, para desconcerto do prefeito, em Sucupira ninguém morria.

O criador de Odorico é enterrado no mausoléu dos imortais, no túmulo número seis dos que são destinados a membros da Academia Brasileira de Letras, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Se tivesse morrido em Sucupira, Dias Gomes poria fim ao tormento do prefeito. Mas o cemitério não inaugurado deixa o buraco para sempre aberto, de um Real que pede um cinzel.

O cinzel esculpe o bloco de mármore como a palavra ajuda a esculpir a cadeira onde um significante está sempre pronto a ser capturado.

No ato de criação, como nos lembra Lacan no Seminário sobre as Formações do Inconsciente, o sujeito apreende a dor de existir. Quando cria, o sujeito põe em movimento o que Lacan chama de “signo de ser”, ou seja, um certo desligamento de si mesmo para poder ter com sua vida uma relação única, presentificando, neste processo, a morte. É esta uma relação sígnica na qual o sujeito se fará representar alhures por sua obra. A ponto de podermos confundir Dias Gomes com Odorico. É a possibilidade da representação que estrutura o sujeito na decomposição de si mesmo. Se assim não fosse, a morte biológica do criador, exterminaria a criatura.

Odorico existe pela pena de seu autor que, em morrendo, faz de ambos imortais. Imortalidade só possível pelo significante que acessa na linguagem o mecanismo da báscula presença - ausência.

Um sujeito para alcançar o estatuto de humano há que estar atravessado pela divisão que, numa operação lógica, o faz ser significado. Ser significado é da ordem da renúncia ao ser como existência para entrar num mundo de representações, como por exemplo, o nome próprio. Mas se algo falha neste circuito, estamos diante da patologia.

Pedro vem à consulta com diagnóstico de depressão. Encaminhado pela psiquiatra de um posto de saúde do município que o medica com antidepressivos. Nesta época, trabalhava como recepcionista num hotel, atividade que o desagradava. Seu pai encontrava - se doente, com câncer. Pedro ajudava a cuidá - lo uma vez que morava na casa dos pais. Ainda nas primeiras entrevistas, diz que é homossexual mas que não vem à consulta por causa disso. O que o traz é a depressão. Mas a convocação a falar deixa - o muito ansioso. Repete que só estava ali porque a doutora do posto o encaminhara. Após três entrevistas, deixa de vir.

Cerca de quatorze meses depois, Pedro retorna solicitando ser escutado. No tempo em que esteve afastado, seu pai morreu e ele entrou em “depressão profunda”(sic) - saiu do emprego e ficou vários meses na cama. Desde então, não trabalhou mais.

Atualmente, com quarenta anos e há cerca de cinco fora do mercado de trabalho, acha que não conseguirá mais emprego. Vive com sua mãe na casa deixada pelo pai. Ambos sustentam - se também da pensão deixada por esse.

Pedro concluiu o segundo grau de escolaridade e tentou por três vezes vestibular para medicina. No terceiro fracasso, desistiu.

Quando retorna a ser escutado, encontra - se rastreando em si o vírus HIV. Conta que logo após o falecimento de seu pai, ficou sabendo da morte de um ex - namorado, vítima de AIDS. Desde então, passa muito tempo percorrendo postos de saúde, submetendo - se a exames e não acreditando nos resultados negativos.

Em sua fala, ter o vírus da AIDS seria a solução para seus problemas, pois morreria logo. Aponta para os constantes fracassos de sua vida e compara - se com um mendigo, sendo que este estaria melhor do que ele que não teria forças sequer para levantar a mão para pedir esmola. Sobre sua mãe, diz: “É a coisa mais importante da minha vida. Se ela morrer, eu morro também.”

Nesta época, Pedro tem um namorado mais jovem do que ele, formado em Farmácia, com mestrado preparando - se para doutorado no exterior. Ao falar sobre esta relação, a desesperança: “Qual o futuro dele com um cara como eu que não trabalha, não estuda, é mais velho do que ele? Se o A. me deixasse seria uma bênção, mesmo eu gostando dele.”

Cerca de três meses depois, ao questionar a validade de nossas entrevistas, Pedro se vai novamente.

Retorna sete meses após, preocupado porque está próximo o momento da partida de seu namorado para o exterior. Nesta ocasião, fala da raiva que sente de seu pai - fraco com os outros, severo com os filhos. Lembra do olhar do pai à mesa, durante as refeições. Ninguém podia falar, seu olhar era paralisante (sic). Preferia que o pai batesse. Não dava carinho, não falava com os filhos, mandava recados pela mãe (sic).

Surge também a figura do bisavô paterno, um imigrante polonês, homem severo e culto. No Brasil, trabalha como professor, alfabetiza crianças da redondeza de sua casa mas não alfabetiza a própria filha, uma mulher muito inteligente, segundo Pedro. Essa, vem a ser sua avó.

Quando o namorado vai para a Europa, inicia - se uma fase na escuta do paciente em que a tônica de seu discurso é a falta de sorte dele em contraposição com a sorte do outro. O que A. tem: curso universitário, mestrado, possibilidade de emprego fácil, doutorado, serve para indicar tudo que ele não tem: trabalho, profissão, dinheiro, estudo.

Em Aristóteles, a sorte tem a ver com uma ação deliberada daí que, conforme ele, não se aplica a coisas inanimadas, a animais inferiores e a crianças (2). Parece ser aí que Lacan vai buscar o termo tuchè que trabalha em seu Seminário 11, dizendo - nos que a boa ou má sorte só nos pode vir de um ser capaz de escolha. É o que ele denomina “encontro do real”.(3) Encontro, desde logo, sempre faltoso porque associado ao acaso, ao inapreensível.

O discurso de Pedro insiste na sorte do outro. Surdo às pontuações da analista de que se houve sorte, certamente houve também trabalho, luta. Aponta para a impossibilidade de reconhecer o significante que, em sua ordem de representação remete a um lugar faltante. A sorte, para Pedro, preenche o buraco. A sorte dá conta de tudo. Mas ele não a tem. Está no lugar da impotência, preso ao gozo do Outro, dimensão de gozo em que o sujeito não encontrou a ereção fálica do desejo.

É o gozo que não deixa o sujeito falar.

Pedro não associa livremente. Seu discurso é o da querela, segue sempre o mesmo vetor: sorte do outro, seu fracasso. E, por conseguinte, o fracasso da analista: acha que vai deixar de vir às sessões, pois nada mudou em sua vida.

Conforme Ricardo Romero (4), o paciente melancólico não opera com o significante, não faz metáfora nem metonímia.

A falha simbólica interrompe o trânsito do gozo do Outro - J(A) do gozo fálico - J(F), resultante do que vai sendo simbolizado do Real.

No texto “A Terceira”, Lacan lembra que “…o gozo do Outro está fora da linguagem, fora do simbólico.” (5). E no seminário sobre as Formações do Inconsciente diz que “Ou a criança entra na dialética, faz - se objeto na corrente das trocas… renuncia a seu pai e a sua mãe, isto é, aos objetos primitivos de seu desejo, ou então, ela conserva estes objetos.” Do mesmo modo, o desejo “tem de se tornar demanda, ou seja, desejo significado, significado pela existência e pela intervenção do significante…” (6).

A despeito da viagem do namorado, Pedro fala do quanto é difícil para ele uma separação. Traz uma cena de infância quando chorava ao ter que entrar para a sala de aula. Para que pudesse fazê - lo, a porta da sala mantinha - se aberta e a mãe ficava passando de um lado para outro. Diz que se angustiava muito ao pensar que ela poderia deixá - lo. Esclarece que o medo era quando ela reaparecia porque aí sabia que ia desaparecer novamente. A mãe que não cessava de aparecer, estabelece para a criança uma falha simbólica no fort - da, não deixa lugar para a ausência, para o símbolo que perpetue a morte da coisa e deixe aí aceder o objeto como marca da falta.

A mãe, na medida em que é o primeiro objeto simbolizado será, para o sujeito, signo do desejo, ao qual se agarrará o desejo dele próprio, nos diz Lacan (7).

Pedro está unido à mãe pelo desejo, impossibilitado ele próprio de desejar. A tal ponto que se a mãe morrer, ele também morre. Ou, só não se mata por causa dela. Vive às expensas dela, literal e fantasmaticamente. Não se cumpre para ele a operação:

separação

Ù

$ a

Ú

alienação

Pode - se afirmar que a operação fica truncada como: S a, onde não existe a não ser a sombra do objeto.

No Seminário sobre A Angústia, a esse propósito, Lacan escreve que “… a vem a tomar uma espécie de função de metáfora do sujeito do gozo… a simboliza aquilo que, na esfera do significante, sempre se apresenta como perdido e… essa caída… vem a constituir o fundamento como tal do sujeito desejante.” (8)

Para o melancólico, cumpre - se o que Freud denomina de percepção de perda do objeto, em contraposição à perda de percepção do objeto. Ou seja, a angústia que advém da ausência temporária da mãe é sentida como perda permanente. No lugar da angústia como signo da falta, se produzirá a dor, a dor de existir.

Numa das sessões, Pedro traz um texto xerografado que trata sobre a dor. Entrega - o a analista. Peço - lhe que fale sobre o texto, ao que ele responde: “Acho muito importante o que está escrito aí. Sem a dor, fica um vazio. Não sei mais o que dizer.” A dor colada ao vazio não deixa espaço, o que faz lembrar a asserção freudiana de que o melancólico come o que caga.

Pedro não pode nada, só pode fracassar. Está fadado ao fracasso como a avó paterna que era inteligente mas não pôde estudar porque o pai dela não permitiu. Fracasso como o de seu pai que também não foi autorizado pela avó (de Pedro) a vir para a cidade estudar (moravam no interior). Pedro parece erotizar - se masoquisticamente com o vazio. Encerrado no Outro, no super - eu paterno, cujo olhar paralisava - o.

O olhar do super - eu faz o sujeito sentir - se como dejeto, como merda. É assim que Pedro segue pela vida, identificado melancolicamente com o pai e com a avó.

Transferencialmente, procura arrastar a analista ao lugar de fracasso, apontando para o fracasso do tratamento. Pensa em suicídio mas “nem a morte é solução para mim.”(sic). Insiste em apresentar - se como morto.

Como romper esse gozo, como intervir num discurso onde o significante falta?

Se o Real é aquilo que o significante não alcança, a intervenção há que se fazer tomando o que de Real vem no discurso do paciente, diria. Intervir desde aí teria a função de situá - lo em algum lugar.

Como nos lembra Ricardo Romero, na transferência com o paciente melancólico, o analista deve ocupar o lugar do cego inoportuno no teatro que fica pedindo ao outro que lhe conte suas cenas.

Neste caso, devolver - lhe o que já está em seu discurso: “Você continuará na vida como seu pai e sua avó. Vem aqui para mostrar o meu fracasso. Quer que sua análise também fracasse.”

Ainda, de acordo com a proposta de Romero, a tentativa, na transferência em se tratando de paciente melancólico, é a de que o analista ocupe o lugar do objeto a, enquanto olhar, ajudando - o a organizar a cena do mundo.

Cena desde logo caótica uma vez que, para ele não existe a tela onde se projeta a bateria significante.

Se a melancolia é uma “doença do desejo” (9) e se o analista semblanteia seu objeto causa, em não lidando com esta ordem de representação é, no mínimo, complicado o lugar que este vem a ocupar na transferência do melancólico.

Se o que está em jogo para este tipo de paciente é o Real, o semblante de objeto - causa dá lugar à coisa mesma, ou seja, o analista é, como o melancólico, a maior merda do mundo.

Assim como, se efetua a passagem ao ato no suicídio, um dos avatares da melancolia, a única coisa que se produz é um cadáver. É a tuchè que dá certo, é o encontro verdadeiro com o Real.

Bibliografía:

(1) Alfredo Dias Gomes - dramaturgo brasileiro, autor teatral, atuou também no rádio e na televisão. Morreu em conseqüência de um acidente de trânsito, em São Paulo, em 18/05/99.

(2) ROSS, Sir David. Aristóteles. Publicações D. Quixote, Lisboa, 1987, p. 84.

(3) LACAN, J. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1979, p. 56.

(4) ROMERO, R. & CANCINA, P.H. Preguntas de la Fobia y la Melancolía. Homo Sapiens Ediciones, Rosário, Argentina, 1995.

(5) LACAN, J. A Terceira in Che Vuoy? nº zero, Cooperativa Cultural Jacques Lacan, 1986, p. 41.

(6) LACAN, J. O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1999, pp. 297 - 98.

(7) Id. Ibid. p. 267.

(8) LACAN, J. Seminário X: a angústia. Edição apócrifa, Escola Freudiana de Buenos Aires, 1978, p. 58.

(9) Vários autores. Dicionário de Psicanálise: Freud e Lacan. Ágalma, Bahia, 1994, p. 147.

(nota) El presente es un trabajo presentado por la autora en la Reunión Lacanoamericana de Rosario. 1999.

Gerardo Herreros http://www.herreros.com.ar