Carlos Lima
"Só sei dizer trevas" - Ingeborg Bachmann
Todos sabemos a ferida que os fantamas românticos abriram em nossos peitos.
É nesta fenda que parte de Hölderlin: "Mas onde está o perigo,
nasce/Também o que salva". É esse caminho de todos os caminhos em Hölderlin que levou Nietzsche a redescobrir a dialética do retorno sem fim. E
o que, certamente, foi a não pequena verdade de sua obra: a negação da
filosofia platônica. Dessa forma conseguiu, dois mil anos depois, a
reconciliação da filosofia com a poesia e a destituição da polícia
platônica das artes. Inaugurando assim uma methéxis entre lógos
e melancholia, que marcou o discurso filosófico da modernidade.
Poesia-filosófica, filosofia-poética no melhor sentido benjaminiano,
adorniano, bachelardiano, barthiano, etc.
(Melancolia = melas + kholé = bílis, mal - bílis negra, mal
negro). A melancolia estava, na Antiguidade, associada a Saturno. Saturno
representava o deus que girava eternamente em torno da Terra e voltava sempre ao mesmo ponto de partida. Saturno era, portanto, o deus do eterno
retorno e, mais tarde, passou a ser também o deus da melancolia.
Para Aristóteles, a filosofia se resumia ao ato puro de pensar o pensamento, ou ao pensamento que se pensava a si mesmo. Depois de Hegel, toda a filosofia que interessa se defrontou com a questão da impossibilidade de pensar o pensamento. Sendo uma dialeta da negatividade, Adorno exprimiu-se, em uma de suas aulas de 1963, sobre esta questão de forma definitiva: "Propriamente falando, só se pode filosofar, em geral, quando, com a consciência de sua impossibilidade, tenta-se, não obstante, expressar-se o inexpressável. Aquele que capitula ante isto, que não começa o impossível com a consciência de sua impossibilidade, melhor será que afaste suas mãos deste ofício precário".
Do mesmo modo, podemos dizer que toda literatura que interessa depois de Baudelaire é uma luta com a impossibilidade do ato de escrever. Mas que não pode capitular diante deste imperativo: ser paixão e dor do "eterno sim do Ser". É neste contexto que podemos situar o tonos deste A dor da linguagem, de Jorge Lucio de Campos, quando ele nos diz no poema "As férias de Hegel":
"Vejo-me e anoitece/no que vejo -/se me tiram lascas e/minhas folhas caem/Se tudo digo no/metal pintado em/que me sinto - eu/mesmo sem vento/e de novo, em/queda rubra/desde o início".
Sente-se já aí o sopro da acedia saturniana. Porém este poema é dedicado a René Magritte, pintor surrealista, que tem um quadro com o mesmo título.
A poesia de Campos tem uma relação muito significativa com a imagem plástica (como também a poesia de Carlito Azevedo), bastando ver as dedicatórias de seus poemas, onde comparecem muitos artistas ligados às artes visuais. É este aspecto que estrutura o lógos ou razão dos poemas, onde temos uma intensidade fanopaica que articula o próprio índice semântico dos versos como, por exemplo, em "O mistério de Isidore Ducasse" dedicado a Man Ray:
"Devo-lhe a alma mais/do que um vulto/em becos que se agitam -/às vezes tremo de prazer/na voltagem que não pára/de tornar-se o mais/infame dos enigmas; a/que devagar me rendo/pra onde quer me/olhe - eis que me digo/e curvo sob um halo/de opalas desdentadas".
Há uma emoção velada que não se desnuda, mas há uma tensão que se
revela e se inscreve na constância de um sistema cortado por duas linguagens.
Uma verbal, que é a da própria poesia; e uma plástica, que é a da busca de um eidos ou representação pictórica que se propõe a nós como os
enigmas lautréamontianos:
"Belo como o encontro fortuito de um guarda-chuva e uma máquina de costura
sobre uma mesa de dissecação". Do mesmo modo, cumpre ressaltar uma
ausência de música, que nos parece intencional, já que o lógos do poema se
dá através da representação imagética levando sua poiésis a prescindir da
intenção melopaica. A linguagem atinge aqui a função estética proposta por
Jacobson inserindo Campos no que podemos denominar uma "poética de
câmara", acentuada por uma dicção iluminada na busca de um indelével território poético, aproximando-o dos poetas alemães Ingeborg
Bachmann (Gestundetzeit) e Reine Kunze (Sensible Weg e Auf
eigene hoffnung). Podemos incluir neste território poético outros poetas
desta
geração, tais como: Paulo Henriques Britto, Nelson Ascher, Carlito Azevedo,
Alberto Pucheu, Angela Melim, Mércia Pessoa, Lu Menezes e Rita Espechit.
Mas há, como frisamos anteriormente, neste século, toda uma linhagem de
poetas que procuraram exprimir este mal-estar da linguagem como expressão de um
mundo em ruínas onde todos os valores humanos foram aniquilados. Basta pensarmos em Kafka, Artaud e Beckett. Para o primeiro, o
sentido do mundo é indecifrável, para o segundo, nem pelo desespero da
linguagem, se consegue atingir o sentido do mundo e, para o terceiro, o mundo
já o perdeu completamente. Temos, portanto, neste A dor da linguagem, de
Jorge Lucio de Campos, a expressão da dor do dizer, mas também da dor do
não-dito e, de forma talvez redundante e, de certo modo, mais radical, a dor do
ato maldito de nomear. Mas retomando Mallarmé, poderíamos dizer que, na literatura pelo menos, a dor existe para acabar em
livro.
APRESENTAÇÃO DE À MANEIRA NEGRA
À maneira negra de Jorge Lucio de Campos elege a transitoriedade, a passagem, como o lugar constitutivo de uma poiesis das coisas. Aposta tudo na astúcia metafísica da palavra que surpreende as coisas através das suas transparências; eis a sua unica determinação. Nada é único, nada é singular, apenas a palavra com seu corte transversal estruturado na representação do poema. Nenhuma paisagem, nenhum estado d'alma. Apenas as coisas na sua aflitiva insularidade: "eis que nada põe/a plaina das horas/revôo que evola/dardos ao sol".
Uma linguagem que pede para ser decifrada, e que ausculta o silencio; que
parece querer dizer que todo poema acabado permanece no inacabado, e que toda
leitura atenta o refaz numa alegoria infinita. Ou que todo poema é apenas uma
fratura do silêncio para que as palavras possam reinstaurar o domínio da
quietude:
"Ímpio torvo sol/- maior poente/que em si
mesmo/(meio-espesso)/silencia".
Há neste À maneira negra uma seca economia do discurso poético, refratário a todo desperdício que lembra as "mirlitonadas" beckettianas: "Surrada a noite -/de trapos e ciclones/- inábil pra soprar/o dia".
Aqui toda duração fica em suspenso. O tempo é uma repetição atroz, tudo é reduzido a ecos de asperezas; estamos diante de reptos cristalizados além da palavra e (quase) pra cá do grito.
Fuente: http://www.fortunecity.com/skyscraper/modem/150/carlos.html